Artistas de abertura deixam Sheeran de mãos vazias em apoio a Macklemore
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Os quatro artistas de abertura da digressão do britânico Ed Sheeran desistiram das atuações em solidariedade com o rapper Macklemore, que foi afastado após ter manifestado apoio à Palestina, durante dois concertos no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, nos Estados Unidos.
Finneas, que deveria abrir seis concertos do britânico na América do Sul, em novembro, anunciou o seu afastamento na tarde de terça-feira, pouco depois de Ed Sheeran se ter pronunciado sobre a polémica e a pressão exercida pelos proprietários das salas de espetáculos para retirar Macklemore da digressão.
"Os artistas não devem ser silenciados quando se pronunciam em defesa dos oprimidos. Decidi retirar-me das próximas datas da digressão com Ed Sheeran. Estou do lado da Palestina e do seu povo", escreveu o produtor e irmão de Billie Eilish, na rede social Instagram.
Antes, o irlandês Aaron Rowe, que abriu os espetáculos do britânico na Austrália e regressaria para as 10 datas restantes na América do Norte, deu conta de que não podia "ficar de braços cruzados".
"Não tomo esta decisão de ânimo leve. O Ed tem sido um amigo para mim e mudou a minha vida; nunca lhe poderei agradecer o suficiente por isso. Mas, como irlandeses, sabemos muito bem o que é o genocídio, a fome forçada e a ocupação violenta. Não posso ficar de braços cruzados e permitir que bilionários usem a sua posição de poder para silenciar as vozes legítimas daqueles que se manifestam contra o genocídio israelita e que denunciam o assassinato selvagem de crianças. Perderia todo o respeito por mim próprio se continuasse como se nada fosse. Tenho de ser verdadeiro comigo mesmo e os meus antecessores que resistiram à colonização e lutaram pela liberdade de que hoje desfruto na Irlanda", explanou.
Também a banda irlandesa Beoga, que acompanha Ed Sheeran, seguiu o mesmo caminho, como protesto pelo "silenciamento de Macklemore por parte dos lobbies sionistas".
"Somos uma banda tradicional irlandesa que nunca imaginou tocar em estádios daquela dimensão e estamos plenamente conscientes da importância dessa oportunidade. Somos amigos do Ed há mais de 10 anos e continuaremos a sê-lo. Acreditamos no diálogo como meio de melhorar a situação do povo palestiniano", argumentou, na mesma rede social.
Por seu turno, a banda pop dinamarquesa Lukas Graham asseverou que se tratou de "uma decisão difícil", mas que tinha de "cancelar as datas restantes".
"É difícil ver famílias noutras partes do mundo a enterrar as pessoas que amam. Devíamos poder falar sobre a guerra, sobre civis que são mortos, sobre crianças que merecem crescer. Onde quer que vivam. Seja qual for a bandeira que hasteia sobre elas. Cresci em Christiania, uma pequena comunidade na Dinamarca onde dizer o que se pensava fazia parte do dia a dia. Ter mais dinheiro não fazia com que a tua opinião valesse mais do que a de qualquer outra pessoa", introduziu.
E complementou: "O dinheiro não dá o direito de monopolizar a conversa. A conta bancária não deve decidir quem pode falar ou que sofrimento nos é permitido reconhecer. Adoro o Ed e estou grato por tudo o que partilhámos. Isso não mudou. Mas não consigo divulgar estas palavras ao mundo e continuar com esta digressão na situação atual."
O próprio Ed Sheeran confirmou que o bilionário Robert Kraft, proprietário dos New England Patriots e do Gillette Stadium, e outros donos de salas de espetáculos recusaram-se a permitir que a digressão se realizasse nos seus recintos caso Macklemore continuasse a abrir os concertos.
"A saída de Macklemore da digressão foi uma decisão do promotor, não foi minha. Nunca desiludiria os fãs que tinham feito planos, nem abandonaria a equipa da digressão e os outros artistas de abertura e músicos que dependem de mim para trabalhar e ganhar a vida", escreveu.
O britânico adiantou ter passado "esta semana a tentar construir pontes, a encontrar uma solução e, infelizmente, não [conseguiu] fazê-lo.
"Estou consternado com o conflito entre Israel e a Palestina. O sofrimento e a dor causados a ambos os lados constituem uma tragédia humana. Há demasiadas guerras em todo o mundo a causar uma dor imensurável, nenhuma das quais deveria ser tolerada. […] Sei quem sou, tanto como pessoa como artista, e aqueles que conhecem o meu coração também conhecem os meus valores", acrescentou.
A polémica estalou depois de, a 4 de setembro, Macklemore ter confessado ao público que queria que o povo de Gaza e "da Cisjordânia ocupada" soubesse que "não nos esquecemos deles".
"Grande parte da razão pela qual quis fazer esta digressão, para começar, foi para poder subir ao palco em estádios como este e dizer duas palavras que me são muito queridas: ‘Liberdade para a Palestina’", disse, num discurso de cerca de dois minutos.
A 5 de setembro, o rapper reiterou os comentários proferidos no dia anterior e dirigiu-se aos membros judeus da plateia: "Criticar Israel, criticar o apartheid, opor-se ao genocídio não é, de forma alguma, uma crítica a vocês. A minha mensagem é de paz, de amor; para que todos os seres humanos sejam tratados com dignidade, respeito e igualdade."
No entanto, o grupo StopAntisemitism acusou o músico de "emboscar" os fãs com "propaganda anti-Israel", posição que foi partilhada pela cantora Pink, de família judia. Já o Conselho Israelita-Americano exigiu que Macklemore fosse retirado da digressão, alegando que as suas declarações levantavam a questão de "onde deve ser traçado o limite quando um artista de abertura usa uma plataforma de concerto global para promover uma agenda política unilateral".
Na segunda-feira, o artista confirmou ter sido afastado, mas frisou que ele, Sheeran e Pink não eram vítimas, uma vez que têm "carreiras, dinheiro, oportunidades, segurança e públicos em todo o mundo".
"Quaisquer que sejam as consequências que qualquer um de nós enfrente pelo que dizemos, podemos voltar para casa, para junto das nossas famílias. As vítimas são o povo palestiniano. Os homens, as mulheres e as crianças que foram mortos, submetidos à fome, deslocados e forçados a viver uma violência inimaginável. Mais de 20 mil crianças foram mortas só em Gaza. Há pessoas a serem mortas hoje, e pessoas serão mortas amanhã", recordou.
Macklemore disse ter mantido "conversas difíceis" com Ed Sheeran, seu amigo há 13 anos, que considera "um irmão". "Como disse ao Ed várias vezes ao telefone, a nossa amizade não pode alterar a minha responsabilidade de dizer a verdade sobre o que aconteceu", ressalvou.
"O Ed estava numa posição lixada. Ele sabia disso. A sua habitual postura apolítica estava a ser desafiada de uma forma como nunca antes tinha sido. Ele disse-me que as palavras ‘Palestina Livre’ e a imagem da bandeira palestiniana eram ofensivas para muitas pessoas com quem falou. Eu disse-lhe que, se aquelas palavras fossem mais ofensivas do que as dezenas de milhares de crianças palestinianas a serem mortas por Israel, então havia uma desconexão fundamental entre a posição dessas pessoas e a minha própria posição. Mas ele não conseguia ultrapassar a sua postura pública de ‘não tomar partido’", lamentou.
Macklemore questionou o porquê de estas declarações, que tem "vindo a dizer em palcos por todo o mundo há quase três anos", se terem tornado "um problema agora", constatando que está "a partilhar o palco com um dos maiores artistas do mundo, em alguns dos maiores palcos da América", e "tomar partido pode custar-nos dinheiro, parcerias com marcas, patrocínios, festivais, espetáculos privados, relações e acesso".
"Se essas palavras me custaram o palco, ao mesmo tempo que voltaram a centrar a conversa na Palestina, então esta foi a digressão mais bem-sucedida em que já participei", concretizou.
Kraft indicou, em declarações à NBC News, que a decisão de afastar Macklemore foi tomada após os comentários do rapper nos espetáculos no MetLife e de "um historial mais alargado de retórica e imagens que consideramos terem sido profundamente ofensivas e dolorosas para a comunidade judaica".
"Grande parte do meu tempo e atenção, na última década, tem-se centrado na luta contra o antissemitismo e o ódio de todos os tipos, e sinto a responsabilidade de me manifestar quando acredito que essa linha foi ultrapassada", disse.
Mas admitiu: "Gostaria de ter a oportunidade de me sentar com o Macklemore e discutir os factos, porque, em última análise, o nosso objetivo é o mesmo – paz para todas as pessoas, o fim do sofrimento e o fim de todo o ódio."
Kraft, que é judeu, criou a Fundação para Combater o Antissemitismo, atualmente conhecida como Blue Square Alliance Against Hate, em 2019. Além de apoiar o Estado de Israel, também se posiciona ao lado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.