Borgo transforma casa de família em metáfora de uma sociedade autoritária
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"Há um ponto de partida concreto, ou seja, o número de membros da família, a história da família. Trata-se da história da minha família materna, que sempre me pareceu uma enorme história política", contou a escritora e jornalista, em entrevista à Agência Lusa.
Publicada em Portugal pela Alfaguara, "Nazarena" recupera uma história da família materna da autora, descendente de emigrantes do Véneto que chegaram às Caraíbas e aí se casaram com mulheres crioulas, embora a mãe não a tenha autorizado a reproduzir a história real.
No entanto, a ficção permitiu-lhe trabalhar aquilo que identificava nessa memória familiar: "a tradição de onde venho, a tradição cultural, a tradição das Caraíbas", mas também fazer "uma alusão muito indiretamente para o que é um país autoritário, para o que é um lar autoritário, para aquilo que não se deseja herdar, aquilo que se deseja rejeitar".
No centro do romance está Nazarena, uma mulher que se apresenta logo no início do romance como alguém que varre os pátios à noite e matou a mãe à dentada.
Inspirada numa mulher real chamada Emma, que viveu entre o final do século XIX e o início do século XX, teve uma filha sobre a qual pouco se sabe, esteve afastada da família e, quando regressou, apresentava "um quadro psicótico e depressivo" e limpava compulsivamente.
"Sempre me pareceu que era uma figura incompreendida, que a tinham rotulado como a louca, como aquela que varre os pátios, e que provavelmente era ela quem tinha tentado transgredir alguma regra familiar", contou.
Emma foi internada várias vezes e envelheceu sem que ninguém compreendesse o que lhe tinha acontecido, contou a autora, admitindo como hipótese que pudesse ter sofrido uma depressão pós-parto.
Karina Sainz Borgo quis dar voz a uma mulher cuja história nunca fora contada e interrogar o silêncio familiar em torno da doença mental.
"Porque é que a deixaram trancada naquela casa?", questionou, considerando que, além de uma "vertente muito política sobre quem manda numa família e quais são as hierarquias", existe "uma história sobre a doença que não [se] conta".
Para a autora, a figura da pessoa considerada "louca" e afastada por não se adaptar reproduz mecanismos de poder existentes nos grupos humanos, com a particularidade de, numa família, se pressupor a existência de afeto.
A autora quis, deste modo, questionar uma ideia transmitida na própria família: "Fui criada com a ideia de que todas as mulheres da minha família eram muito fortes, mas o que eu pensava era que elas eram profundamente infelizes" e "tentei imaginar o que sentiriam, o que pensariam, o que esperariam".
A casa onde vivem as personagens é um dos elementos centrais do romance, simultaneamente origem e clausura, um lugar que pode ser amado por ser aquele onde se cresceu, mas também odiado, perigoso e ameaçador.
"A casa é aquele sítio de onde não se consegue sair, mas onde também não se deixa entrar ninguém", afirmou.
Para Karina Sainz Borgo, no romance, a casa ultrapassa a dimensão familiar, representando "uma espécie de metáfora de como funciona um país, de como funciona uma sociedade".
Apesar de a Venezuela não ser nomeada no romance, e de La Araira, onde decorre a ação, ser uma localidade fictícia, o país está refletido naquele universo, marcado pela chegada de europeus e pela exploração petrolífera, enquanto a casa permanece fechada ao exterior, explicou.
Deste modo, Karina Sainz Borgo procurou fazer "um relato ou um esboço" do século XX nas Caraíbas, "um século muito curioso, em que o progresso parecia estar a chegar, mas acabou por não chegar".
A Venezuela atravessa toda a obra da escritora, que tem explorado nos seus romances o desenraizamento, a perda, a memória e a relação com o país de origem, num percurso que Sainz Borgo compara a "uma escavação".
Em "Cai a noite em Caracas", o seu primeiro romance, a autora diz ter escavado "a camada mais superficial da terra", representada por "um país que te expulsa, um país onde não podes ficar".
Em "O terceiro país", publicado posteriormente, a escavação desceu até à fronteira e à relação com os mortos e a memória, através de uma mãe que procura um lugar onde enterrar um filho.
"E acho que a 'Nazarena' está a chegar ao cerne da questão […], a casa, a mãe, as tias, os pátios, ou seja, tudo aquilo que está a desaparecer e apenas permanece na minha memória", afirmou.
"Gostaria de saber qual é a próxima membrana, porque vou descendo e vou encontrando mais coisas, vou encontrando pedaços de coisas, pedaços de ossos, pedaços de objetos, que me falam de um mundo completamente extinto".
Essa descida corresponde também a uma transformação da linguagem, que em "Nazarena" se tornou "mais sombria, mais violenta, mais irracional", reconhece a autora, que tem sido associada por vezes ao chamado novo gótico latino-americano, uma corrente na qual são frequentemente integradas autoras como a argentina Mariana Enríquez, a equatoriana Monica Ojeda ou a mexicana Fernanda Melchor.
"De alguma forma, sinto mesmo que há um grupo de escritoras que tomou a palavra numa América Latina que não tinha sido contada pelas mulheres da nossa idade", afirmou, assinalando que quase todas estas autoras nasceram entre as décadas de 60 e 80, "um momento extremamente conturbado, extremamente violento do ponto de vista político, em que muitas coisas se [lhes] revelavam desde pequenas".
Segundo Karina Sainz Borgo, violência, terra, escuridão e o tenebroso surgem nessas autoras transformados de maneiras diferentes pela escrita, a partir das experiências vividas.
A escritora recordou uma frase que ouviu de Mónica Ojeda, e que nunca mais esqueceu, quando a escritora disse ter visto "o primeiro decapitado aos 11 anos".
"É claramente a rua, quando olhas para a rua e vês a violência, como uma cena quase irreal, porque a violência na linha da frente é tão horrível, que te é apresentada como uma imagem. Em nós, adquire outro simbolismo que parece gótico, mas, na verdade, acho que o que é, na realidade, é violento", afirmou.
Entre as referências literárias presentes na construção de "Nazarena", Karina Sainz Borgo destaca Juan Rulfo e Federico García Lorca: "Seria absurdo pensar que se pode narrar a morte sem ver como 'Pedro Páramo' a abordou", e "não posso falar de mulheres confinadas numa casa no século XX sem fazer referência a 'A casa de Bernarda Alba'".
"Nazarena" marca também uma mudança na abordagem da sexualidade, ausente nos romances anteriores ou associada sobretudo à violência.
"Nos meus romances não nascem crianças, ninguém se toca", afirmou, explicando que quis perceber por que razão se estava "a fechar à vida".
Jornalista de profissão, Karina Sainz Borgo considera que o jornalismo influencia cada vez mais a sua ficção, destacando a disciplina e o controlo da linguagem que a profissão lhe impõe.
"Nazarena", o romance mais curto que escreveu, começou por ter cerca de 500 páginas, reduzidas depois a menos de 200.
Por outro lado, conta que o que a fez começar a escrever ficção foi "a dor verdadeira, a verdadeira angústia", associadas à consciência do desenraizamento e à relação conflituosa com a Venezuela.
"Os meus romances são sempre muito críticos em relação ao país e eu sou muito crítica em relação ao país", afirmou, contando que há venezuelanos que lhe dizem para "parar de escrever e fazer psicanálise de uma vez por todas".
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