Da "importância do jornalismo" à "traição". "NAZA" faz correr tinta
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O documentário "NAZA", que expôs a forma como as forças israelitas matam civis – os "danos colaterais" – na tentativa de eliminar membros do Hamas, tem feito correr muita tinta. Se Israel denunciou os cineastas por "incitarem ao ódio antissemita" e por oferecerem uma imagem "distorcida e unilateral" do conflito na Faixa de Gaza, o Hamas pediu uma "investigação internacional séria e independente" aos "crimes de guerra" israelitas, tendo destacado "a importância do papel do jornalismo e do cinema documental na hora de revelar os factos". Eis tudo o que se sabe.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, acusou, na segunda-feira, os realizadores do documentário "NAZA" de "incitarem ao ódio antissemita" a partir da própria nação, o que disse ser "simplesmente intolerável".
"Os dois realizadores israelitas retratam as Forças de Defesa de Israel como se fossem criminosos de guerra e são aplaudidos no Festival de Cinema de Veneza", disse, referindo-se à longa ovação que o filme recebeu na sua apresentação, na passada quinta-feira.
Netanyahu associou ainda o documentário, que venceu o Prémio Especial do Júri, a declarações do antigo general e atual líder do partido de oposição Democratas, Yair Golan, que, no ano passado, considerou que Israel "está a matar bebés em Gaza como um 'hobby'". Acresce que o chefe do Governo procurou também ligar o filme ao partido Yashar, liderado pelo antigo comandante do exército Gadi Eisenkot, que acusou de ter um acordo eleitoral com Yair Golan para as legislativas agendadas para 27 de outubro.
Também Gadi Eisenkot, principal adversário do Likud de Netanyahu, que tem surgido na liderança da generalidade das sondagens, criticou o documentário, no domingo, comentando que "NAZA" oferece uma imagem "distorcida e unilateral" do conflito no enclave palestiniano e prejudica os soldados israelitas.
O ministro da Cultura de Israel, por seu turno, pediu, na segunda-feira, um inquérito para identificar as fontes israelitas que acusam o exército de matar civis em Gaza. Miki Zohar já tinha sugerido, no domingo à noite, que fosse retirada a nacionalidade israelita aos realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor, acusando-os de "traição contra o Estado".
"Pedi também que se investigue a forma como os elementos foram obtidos, quem está por trás e que se verifique se as atividades que levaram à sua recolha e publicação podem ter ajudado o inimigo em tempo de guerra", disse.
Já o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, da extrema-direita, atirou que Abraham e Szor "são uma vergonha e uma desgraça para todo o povo de Israel".
"Desapareçam. Tenho a certeza de que os vossos amigos, os nossos inimigos no Hamas em Gaza, vos receberão de braços abertos", escreveu nas redes sociais.
Hamas pede "investigação internacional séria". "Importância do papel do jornalismo"
O Hamas, por seu turno, exigiu, na terça-feira, uma "investigação internacional" em torno do conteúdo do filme, tendo assinalado que "o mundo viu com grande ira o que foi revelado no documentário 'NAZA'". Frisou, além disso, que "a importância dos testemunhos deriva do facto de terem sido realizados por pessoas que trabalham no seio do Exército e do aparelho de segurança sionista e participaram em sistemas de vigilância e ataque".
"Isto requer uma investigação internacional séria e independente, bem como documentar estes testemunhos nas investigações relacionadas com crimes de guerra e limpeza étnica cometidos contra civis na Faixa de Gaza", disse, vincando que a ovação de 25 minutos recebida pelo documentário no Festival de Cinema de Veneza "reflete o grande impacto que os testemunhos tiveram".
Nessa linha, destacou "a importância do papel do jornalismo e do cinema documental na hora de revelar os factos e quebrar as tentativas sionistas de negação e desinformação", bem como a relevância que este tipo de investigações tem "na hora de apresentar perante a opinião pública global o sofrimento das vítimas".
Desta feita, o Hamas pediu ao Tribunal Penal Internacional (TPI), às Nações Unidas e a organizações de direitos humanos que "documentem os testemunhos e informações contidos no filme para os utilizar nos processos de investigação e responsabilização com vista a confirmar os crimes de extermínio e limpeza étnica cometidos pelo Exército sionista de ocupação".
"O que 'NAZA' revelou não deve ser apenas material para uma visualização e mostrar simpatia, mas um incentivo adicional à investigação e à responsabilização, à justiça para as vítimas e para garantir que os responsáveis por crimes de guerra, genocídio e violações não escapam à responsabilização", frisou.
Mais de mil cineastas israelitas e ONGs ao lado dos autores
Entretanto, mais de mil cineastas israelitas e 43 organizações israelitas de direitos humanos manifestaram apoio aos autores de "NAZA", apelando, numa declaração conjunta, às autoridades israelitas para que cessem a incitação e as ameaças contra Yuval Abraham e Rachel Shor, assim como para que se abstenham de perseguir os cineastas ou as suas fontes.
"A resposta institucional ao filme e as ameaças contra os seus criadores são típicas de regimes ditatoriais", lê-se na declaração assinada pelas organizações não-governamentais (ONG) Peace Now, Adalah, B'Tselem, Doctors for Human Rights Israel ou Breaking the Silence, entre outras.
Já os cineastas israelitas assinaram uma petição na plataforma coletiva de Atzuma a favor da "liberdade de expressão e criação", pedinddo a outros para expressarem a sua solidariedade com Shor e Abraham.
"Nos últimos dias, assistimos a uma campanha sem precedentes de difamação e incitamento contra cineastas, e a distância entre isto e a violência e a ameaça física às suas vidas está a diminuir cada vez mais", denunciam os artistas no manifesto, onde defendem que "a principal função da arte e do jornalismo é refletir a sociedade em que operam, gerar diálogo e debate sem preconceitos, mesmo quando a realidade é difícil".
E complementaram: "Esperamos que o filme seja distribuído em Israel o mais rapidamente possível e que todos possam vê-lo, formar a sua própria opinião e gerar um debate genuíno e direto sobre a guerra em Gaza e as suas consequências, um debate que até agora mal ocorreu nos media e na sociedade israelitas."
Ambos os grupos rejeitaram o pedido do ministro da Cultura israelita para retirar a cidadania de Abraham e Shor devido ao documentário.
As ONG também exigiram uma investigação israelita "séria" sobre o elevado número de vítimas em Gaza, incluindo civis, e o acesso livre para jornalistas no enclave palestiniano, que é negado desde outubro de 2023. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 74.000 palestinianos foram mortos e cerca de 8.000 continuam desaparecidos.
"É realmente muito importante para nós que os israelitas vejam este filme"
O documentário, produzido pelo jornal britânico The Guardian, deve o seu nome ao acrónimo usado pelo serviço de inteligência israelita para estimar o número de civis que morrerão num ataque aéreo - por exemplo, "20 NAZA". Tratam-se, assim, de "danos colaterais".
Em concreto, o filme baseia-se nos testemunhos anónimos de 24 membros do exército e dos serviços secretos israelitas, expondo a forma como, de acordo com os depoimentos, as forças israelitas matam numerosos civis na tentativa de eliminar membros do Hamas.
Ao longo de 80 minutos, os entrevistados descrevem como vários sistemas tecnológicos, recorrendo em particular à Inteligência Artificial (IA), permitem ao exército localizar, através dos telemóveis, alegados membros do Hamas e as suas famílias. Depois de localizados, são atingidos indistintamente em casa, denunciam.
Uma das pessoas entrevistadas detalhou que um dos bombardeamentos contra um único alvo matou 500 pessoas que se encontravam nas proximidades. Contudo, as forças israelitas argumentaram que "nunca planearam, aprovaram ou executaram um ataque em Gaza no qual estivesse previsto que 500 pessoas, ou qualquer outra ordem de grandeza semelhante, morressem".
"Não há qualquer prova que sustente essa afirmação", acrescentou o exército, que já tinha negado recorrer à IA para identificar alvos.
Abraham e Szor integraram a equipa de "No Other Land", com os palestinianos Hamdan Ballal e Basel Adra, sobre o plano israelita de destruição de uma aldeia palestiniana na Cisjordânia que ganhou o Óscar de Melhor Documentário em 2025.
"É realmente muito importante para nós que os israelitas vejam este filme", disse Abraham, no sábado, quando foi anunciado o prémio especial para "NAZA", em Veneza.