Noémia de Sousa. Tradução de "Sangue Negro" para francês gera debate
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Em declarações à agência a Lusa, a tradutora francesa Elisabeth Rodrigues contou que descobriu o livro "Sangue Negro", da poeta moçambicana Noémia de Sousa, numa Feira do Livro em Maputo, Moçambique, em 2016, sendo que levou oito anos até a publicação sair em França pela editora francesa Editions Project'île.
A obra cativou a tradutora pela sua "força, energia [e] revolta", mas, sobretudo, por retratar "o percurso de uma mulher na história da emancipação colonial" e a "articulação entre a vida [de Noémia de Sousa] e o empenho pessoal que teve no contexto de afirmação de identidade cultural moçambicana".
"É muito importante porque é como se o texto me chamasse para eu traduzir", declarou Elisabeth Rodrigues, sublinhando que sentiu uma verdadeira necessidade de dar voz em francês à obra daquela que é considerada a "mãe dos poetas moçambicanos".
Para transpor o ritmo marcante, a oralidade e as referências musicais do texto sem perder a identidade original, a tradutora contou que recorreu à escuta constante de jazz e 'spirituals', bem como à leitura de autores com uma escrita lírica e apelativa.
Diante das especificidades culturais e da mistura de línguas como o português, ronga e o inglês, o recurso a um glossário foi "absolutamente inevitável", revelou Elisabeth Rodrigues.
A tradutora disse que contou com a ajuda da filha de Noémia de Sousa, Virgínia Soares, o professor e amigo da poeta Nelson Saúte, e o escritor António Cabrita.
Questionada sobre a receção e reação dos leitores franceses a "Sang Noir" (título em francês), a intérprete disse que "houve poucas reações da publicação", mas destacou que nos meios universitários franceses o livro foi bem acolhido e integrou os debates sobre a identidade africana e a negritude.
Sobre as exigências do trabalho de tradução, Elisabeth Rodrigues recordou que "até os [textos] mais simples são difíceis", pois "nada é simples na tradução e, sobretudo, na poesia".
A tradutora disse ainda que os poemas "Nossa voz", "Poema da infância distante" e "Moça das docas" estão entre os seus preferidos.
Sobre a nomeação de "Sang Noir" para o Prémio Literário Fetkann! Maryse Condé, na categoria de Poesia, em 2025, a tradutora admitiu ter sido apanhada de surpresa, mas não escondeu a satisfação.
"É uma grande honra", afirmou.
Elisabeth Rodrigues — que afirma ter nascido "em português" e viver "em francês" — conta com uma longa trajetória na difusão da literatura lusófona no espaço francófono, traduzindo há mais de 20 anos autores como Mia Couto e, mais recentemente, a obra "Misericórdia", da escritora portuguesa Lídia Jorge.
Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares, mais conhecida como Noémia de Sousa, que assinala em 20 de setembro o centenário do seu nascimento, morreu em 2002, em Cascais, Lisboa.
A jornalista, tradutora e poeta moçambicana é considerada uma das figuras mais marcantes da literatura moçambicana e do combate anticolonial.
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