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Obra biográfica de Nelson Saúte conta percurso humano e político da poeta

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                    Obra biográfica de Nelson Saúte conta percurso humano e político da poeta
Obra biográfica de Nelson Saúte conta percurso humano e político da poeta (Foto: Reprodução)

"A minha família está muito ligada à Noémia de Sousa, eu próprio, a minha mulher. Durante muitos anos fomos visitá-la frequentemente, enquanto vivemos cá em Portugal. Passávamos quase todos os domingos com ela", recordou Nelson Saúte, em declarações à agência Lusa, apontando como um dos principais motivos para a escrita deste livro a sua relação pessoal com a escritora.

 

Para o autor, Noémia de Sousa, que assinala o centenário do nascimento em 20 de setembro, é vista como "uma figura esquiva em termos biográficos", pois "não falava de si própria [e] há poucas entrevista", o que apresentou como um dos principais obstáculos na pesquisa.

Diante desta escassez de registos, Nelson Saúte foi à procura do "rastro poético" deixado pela autora, incluído os textos que publicou na imprensa e as poucas entrevistas concedidas, de forma a reconstruir o seu perfil.

"Tive de reconstruir aquilo que sabia do convívio dela, daquilo que tinha lido sobre ela, reconstruir um pouco o perfil dela para escrever esta biografia literária, que é um testemunho de alguém que conheceu a Noémia de Sousa e de alguém que, em termos familiares, conviveu com ela", explicou.

Além da dimensão pessoal, a obra visa dar a conhecer aos leitores a importância histórica, política, literária e jornalística da escritora.

Em termos históricos, Saúte destacou que a poeta moçambicana foi "uma das primeiras militantes anticoloniais", tendo redigido, ao lado do poeta José Craveirinha, do fotógrafo Ricardo Rangel e de Dolores Lopez y Lopez, sua amiga e filha de um antifranquista, "um dos primeiros manifestos a exigir a independência de Moçambique".

A relevância política da apelidada "mãe dos poetas moçambicanos" passa também pela perseguição da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), pelo seu envolvimento no Movimento Anticolonial (MAC), em 1957, e pelo convite para ir a "um congresso clandestino do Partido Comunista Português (PCP)", sendo estes exemplos de episódios da vida da escritora documentados no livro.

A obra demonstra ainda como Noémia de Sousa sempre esteve ligada às letras, quer na poesia, quer no jornalismo, afirmando-se como uma das "fundadoras da poesia moçambicana" e "a primeira figura a escrever poemas verdadeiramente africanos".

O autor considera "escandaloso" o facto de não existir uma publicação da autora em Portugal, denunciando a falta de interesse do mercado editorial português pelas grandes figuras das literaturas africanas.

O livro celebra o centenário do nascimento da moçambicana Noémia de Sousa (20/09/1926 - 04/12/2002), autora de 46 poemas, escritos entre 1948 e 1951, que foram inicialmente publicados no periódico O Brado Africano e depois reunidos no único livro publicado, "Sangue Negro".

"É uma biografia incomum, em que Saúte alia o rigor documental com a emoção de lembranças afetivas, sendo o resultado uma biografia sensível em que a poetisa, ao mesmo tempo que é revelada como pessoa e artista, desponta como ativista no contexto político e social de Moçambique e de África", lê-se na página da editoria brasileira Kapulana, que lança a obra em 01 de setembro no Brasil.

A edição moçambicana, que irá ser publicada pela editora Marimbique pouco depois, e em Portugal será apresentada em 20 de setembro na sede da agência Lusa, em Lisboa.

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